sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Praxes estudantis, entre a tradição e a submissão

Existirá uma correlação entre a intensidade das praxes e o enfraquecimento do movimento estudantil? Em Coimbra, a tradição académica é antiga e marcou a cidade até hoje. A violência e os excessos foram uma constante ao longo dos séculos. Nas primeiras décadas do século XVIII registaram-se diversas ações e conflitos, animados por trupes, caçoadas e investidas, práticas que chegaram a ser proibidas por D. João V em 1727. Com o fim da polícia universitária e da Prisão Académica, a vigilância dos novatos foi aos poucos sendo transferida, ainda que informalmente, para os estudantes mais velhos, que controlavam o recolher dos caloiros e asseguravam a preservação de um código ético consentâneo com o estatuto elitista da sua condição. Aí reside a origem da praxe. Paralelamente, como se sabe, a tradição e a cultura estudantis não deixaram de promover formas de dissidência e contracultura.
Em alguns períodos, como na década de 1960 em Coimbra, os rituais académicos, incluindo a praxe e a atividade das "repúblicas" estudantis, chegaram a ser usados como meios de dissimulação da resistência estudantil face ao Estado Novo, à Guerra Colonial e a um ensino considerado obsoleto. Todo este passado se inscreve na tradição e na história da Universidade de Coimbra. Uma tradição que é desconhecida pela generalidade da comunidade estudantil mas que é constantemente invocada para justificar os atuais ritos de iniciação, inclusive por outras instituições de ensino superior sem passado histórico, e onde, paradoxalmente, as praxes de hoje tendem a assumir formas bem mais duras do que na cidade que as viu nascer.
Com a institucionalização da democracia, multiplicaram-se as universidades e os institutos por todo o país, e os estudantes passaram dos escassos milhares para as várias centenas de milhares. A invocação das tradições na atualidade não esconde a sua permanente reinvenção, ao mesmo tempo que oferece aos jovens a promessa de reconstrução dos laços de pertença coletiva que têm vindo a esbater-se em diversas esferas de sociabilidade. É à luz destas tendências e sob a influência de pulsões comunitaristas, que os comportamentos dos jovens estudantes - sobretudo em contextos de multidão, de excitação consumista e de dinâmicas de grupo - convergem na adesão massiva às praxes académicas. A vocação "associativa" (a Gesellschaft) tem-se esvaziado, enquanto a "comunidade" (a Gemeinschaft) parece renascer, pelo menos momentaneamente, sob a forma de uma exaltação ficcionada da identidade tradicionalista do corpo estudantil.
O caloiro quando chega está inseguro e, mais do que nunca, precisa do grupo. Por isso aceita os rituais, mesmo quando as "vozes de comando" dos "doutores" adquirem um tom mais autoritário, com os corpos em sentido, os olhos no chão ou colocados na deplorável postura "de quatro". Depois, findo o ritual mais "duro", passados os momentos de "tensão", é chegada a hora da celebração. Os jovens adotam hoje o hábito de "beber em festa" (o binge drinking, como é conhecida essa nova modalidade de convivência): à mistura com muitos "gritos de guerra" (F-R-A e obscenidades gritadas em público) e muitos brindes "E vai acima! E vai abaixo! E vai ao centro! E bota abaixo!" Divertem-se com isso e "integram-se" por esta via. A posteriori, quase todos dizem maravilhas das experiências de praxe. A distância que liga a "humilhação" à "diversão" é muito curta; e essa passagem rápida - dir-se-ia do frio para o quente - cria um efeito de catarse, que se torna marcante, que fortalece as amizades entre "iguais na adversidade"; e exalta os laços tutelares entre "caloiros" e "doutores". Por isso, alguns chegam a gritar pelo "direito à humilhação". Na conceção de muitos, esse é um requisito para se triunfar na vida. Enfim, ano após ano, as cenas repetem-se e os papéis alteram-se com novos protagonistas a reverenciar o poder do "doutor/padrinho". E assim se fabrica e perpetua a lógica disciplinar e o "respeitinho" pela hierarquia, uma condição que - supostamente - pode augurar uma carreira promissora... (in DN, 2/11/2016)